Abóbora, jerimum ou moranga? O Brasil tem três nomes para a mesma cucurbitácea, e cada um deles conta uma história de origem, geografia e cultura. Se você é do Sul, provavelmente conhece a moranga redonda e alaranjada nas festas de junho. Se é do Nordeste, o jerimum é sinônimo de tradição culinária, de receitas passadas de avó para neta. Se é de São Paulo ou do Centro-Oeste, a abóbora é aquela verdura presente na mesa desde a infância. Mas por que nomes tão diferentes para uma mesma planta?
Se você já se perguntou por que dizemos abóbora, jerimum ou moranga dependendo da região, a resposta está nas línguas indígenas, e cada variante revela uma rota diferente da colonização.
A Palavra “Abóbora”
A resposta está no Tupi, a língua dos povos originários que dominava o litoral e interior do Brasil antes da colonização portuguesa. Todos os três nomes, abóbora, jerimum e moranga, vêm dessa raiz profunda. E a distribuição geográfica desses nomes no Brasil atual nos mostra as rotas da colonização, as influências regionais e as dinâmicas culturais que moldaram o português brasileiro.
Abóbora é o nome mais antigo e o mais documentado da tríade. Vem do Tupi “ababura” ou “abobora”, registrado desde o século XVI em cartas de jesuítas e documentos coloniais. O padre José de Anchieta, um dos primeiros a descrever a flora do Brasil indígena, usava este termo em seus textos.
Geograficamente, abóbora é o nome predominante em São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, Centro-Oeste, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Paraná e Santa Catarina, e é justamente essa amplitude que torna a variação abóbora, jerimum ou moranga tão reveladora. É um nome genérico: o brasileiro do Sul que diz “abóbora” está se referindo a qualquer membro do gênero Cucurbita, a abóbora cabotiá, a menina, a moranga grande quando está longe do Sul, a abóbora verde, a abóbora d’água. No supermercado, nos cardápios, nas receitas de sopas e cremes, é “abóbora” que predomina nessas regiões.
A força do nome abóbora está justamente em sua antiguidade e em sua extensão geográfica de base colonial, ela acompanhou os bandeirantes para o interior de São Paulo, os jesuítas para Minas Gerais, e a expansão portuguesa para o Centro-Oeste. Quando o colonizador português não tinha termo equivalente em sua língua para essa cucurbitácea desconhecida, adotou simplesmente a palavra Tupi, e assim nasceu a primeira peça do quebra-cabeça abóbora, jerimum ou moranga.

Povos Tupi cultivavam cucurbitáceas séculos antes da colonização portuguesa, e deram a elas os nomes que se tornaram abóbora, jerimum e moranga no português brasileiro.
A Palavra “Jerimum”
Jerimum é a palavra da tradição nordestina. Vem do Tupi “yurimum” ou “jerimu”, e sua presença no Nordeste é tão forte que para muitos nordestinos, jerimum é a única palavra correta, abóbora sequer existe em seu vocabulário cotidiano. Jerimum predomina em Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e no interior da Bahia. Sua presença também é marcante no Pará, Amazonas e Maranhão.
Mas jerimum não é apenas um nome, é uma herança culinária. Quando o nordestino pensa em jerimum, não pensa em qualquer abóbora: pensa em pratos específicos, em receitas que atravessam séculos. Jerimum com carne de sol é um clássico pernambucano. Creme de jerimum é servido em restaurantes de cochilar no Ceará. Jerimum com leite é doce de festa junina, ao lado da canjica nordestina. A palavra jerimum carrega consigo toda uma dinâmica de preparo, de modo de comer, de significado cultural.
Historicamente, jerimum permaneceu forte no Nordeste porque o uso regional da palavra era contínuo e profundo: cultivava-se jerimum nas plantações coloniais de interior, vendia-se jerimum nas feiras das capitanias, preparava-se jerimum nas cozinhas das casarões. O Tupi “yurimum” não era apenas um nome botânico, era nome de verdura, de alimento, de realidade agrária do Nordeste colonial que perdurou séculos. Entender por que dizemos abóbora, jerimum ou moranga passa necessariamente por essa história de permanência.

Nas feiras nordestinas, jerimum é sinônimo de tradição culinária, do Tupi “yurimum”, a palavra atravessou séculos e permanece viva no vocabulário do Ceará, Pernambuco e Paraíba.
A Palavra “Moranga”
Moranga é a palavra do Sul, particularmente do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e, em menor medida, de partes do interior de São Paulo. Enquanto abóbora é um termo genérico, moranga designa algo muito específico: a Cucurbita maxima, aquela abóbora grande, redonda, de casca lisa ou ligeiramente nervurada, alaranjada ou vermelha, de polpa grossa e doce.
A etimologia de moranga é menos certa que a de seus irmãos. Muitos linguistas apontam para uma origem Tupi, possivelmente “morang” ou palavra similar, mas a documentação é mais escassa. O que se sabe é que moranga é particularmente um termo gaúcho e catarinense, e ganhou força regional especialmente a partir do século XVII, quando o uso colonial consolidou palavras diferentes para plantas diferentes.
A distinção botânica importa: quando um gaúcho diz “moranga”, está sendo preciso. A moranga é aquela de sopa cremosa, a de manteiga derretida, a de carne vermelha e consistente. Não é a “abóbora cabotiá” de SP (que é mais alongada), não é qualquer cucurbitácea, é a moranga. Essa precisão linguística reflete um conhecimento agrícola regional: no Sul, especialmente na zona de colonização açoriana e italiana, conheciam-se bem as variedades de cucurbitácea, e usavam-se nomes diferentes para cada uma. É por isso que o debate abóbora, jerimum ou moranga não é apenas linguístico, é também botânico.

Distribuição regional de abóbora, jerimum e moranga no Brasil: abóbora domina SP/MG/Centro-Oeste, jerimum é nordestino e amazônico, moranga é gaúcha e catarinense.
Como o Brasil se Divide: Abóbora, Jerimum ou Moranga por Região
A distribuição geográfica dessas três palavras no Brasil atual é um mapa da colonização e da dinâmica regional. Não é aleatória, é histórica e segue padrões claros.
| Região / Estado | Variante Predominante | Observações |
|---|---|---|
| São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, DF, Centro-Oeste | Abóbora | Nome genérico para qualquer Cucurbita; base colonial bandeirante; predomina em supermercados e culinária regional |
| Rio de Janeiro, Espírito Santo | Abóbora | Herança litorânea portuguesa; coexiste com jerimum em comunidades nordestinas migradas (Rio) |
| Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul | Abóbora / Moranga | “Moranga” para Cucurbita maxima (redonda); “abóbora” para variedades demais; divisão precisa por tipo botânico |
| Ceará, RN, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe (Nordeste costeiro) | Jerimum | Palavra dominante; “abóbora” praticamente ausente no uso cotidiano; forte identidade culinária |
| Bahia (interior), Piauí | Jerimum / Abóbora (misto) | Salvador usa jerimum; interior alterna conforme influência nordestina vs paulista |
| Pará, Amazonas, Maranhão (Norte) | Jerimum | Forte herança indígena e de ocupação nordestina; jerimum é sinônimo de alimento tradicional |
Distribuição regional de abóbora, jerimum e moranga no Brasil. A divisão reflete rotas de colonização, herança linguística Tupi e dinâmicas regionais de cultivo e consumo.
O padrão do mapa abóbora, jerimum ou moranga é claro: abóbora domina em São Paulo, Minas e no Centro-Oeste, a rota dos bandeirantes. Moranga é gaúcha e catarinense, a rota da colonização açoriana e dos imigrantes europeus do século XIX. Jerimum é nordestina e amazônica, a rota da ocupação colonial inicial, da herança indígena intensa, do comércio de interior.
A fronteira entre abóbora, jerimum ou moranga não é fixa: o Paraná e Santa Catarina são zonas de transição. Em algumas cidades catarinenses, você escuta “abóbora” em uma mercearia e “moranga” em outra. Isso reflete ainda a dinâmica histórica desses estados, foram ocupados tanto pela rota paulista quanto pela rota gaúcha, pela imigração italiana e pela açoriana.
Raízes Históricas de Abóbora, Jerimum ou Moranga
Para entender por que abóbora, jerimum e moranga são tão diferentes, é essencial entender a história do Tupi no Brasil e como a colonização dividiu o país linguisticamente.
| Variante | Origem Linguística | Influência Histórica | Chegada ao Português Brasileiro |
|---|---|---|---|
| Abóbora | Tupi “ababura” | Indígena costeira e de interior próximo; adoção portuguesa direta | Séc. XVI, documentado em cartas jesuítas (Anchieta); base colonial litoral-bandeirante |
| Jerimum | Tupi “yurimum” ou “jerimu” | Indígena interior (Nordeste, Norte); uso denso em plantações coloniais | Séc. XVI–XVII, consolidado no Nordeste; permanência intensa em feiras, culinária, tradição oral |
| Moranga | Tupi “morang” (etimologia menos certa) | Indígena do Sul; conhecimento botânico diferenciado (Cucurbita maxima) | Séc. XVII–XVIII, consolidado no Sul colonial; reforçado com colonização açoriana |
Etimologia e trajetória histórica de abóbora, jerimum e moranga. Todas nascem do Tupi, mas divergem em cronologia de consolidação regional.
O Tupi era a língua geral do Brasil nos séculos XVI e XVII. Quando jesuítas chegavam a um porto nordestino ou a um aldeamento paulista, encontravam indígenas falando Tupi, e aprendiam, com eles, os nomes das plantas. Para a cucurbitácea desconhecida aos europeus, existiam nomes Tupi diferentes conforme a região: “ababura” no litoral bandeirante, “yurimum” no interior nordestino, “morang” no Sul.
Os portugueses, pragmaticamente, adotaram essas palavras. Não havia sentido em criar novos nomes para o que já se chamava abóbora, jerimum ou moranga: os indígenas já conheciam a planta, já a cultivavam, já tinham nomes. Os colonos aprenderam com os indígenas, os padres registraram em seus escritos, e as palavras consolidaram-se em cada região conforme a dinâmica de colonização.
O que importa é que abóbora, jerimum ou moranga não são sinônimas numa origem comum, são palavras locais que, por acidente geográfico e histórico, designam a mesma coisa. Abóbora, jerimum e moranga nasceram em locais e épocas diferentes. E por isso, ainda hoje, cada uma delas marca um lugar, uma tradição, uma maneira de ser brasileiro.
Curiosidades sobre Abóbora, Jerimum ou Moranga
Abóbora, Jerimum ou Moranga: A Confusão da Culinária Brasileira
Quando um chef nordestino escreve em um livro de receitas “jerimum” e manda publicar em uma editora paulista, a editora frequentemente “corrige” para “abóbora”. O resultado? Receitas “corrigidas” que nunca foram testadas com aquele tipo específico de abóbora. Muitos cozinheiros aprendem na prática que a textura, o gosto e o tempo de cozimento variam, e passam a desconfiar de receitas de outras regiões. Essa pequena batalha entre abóbora, jerimum ou moranga tem impactos reais na transmissão de conhecimento culinário.
Abóbora, Jerimum ou Moranga: A Moranga como Identidade Gaúcha
Na culinária gaúcha, onde a escolha entre abóbora, jerimum ou moranga tem peso identitário, “moranga recheada” é um prato clássico de festas juninas e reuniões familiares. A moranga é tão associada ao Rio Grande do Sul que muitos gaúchos presumem que em outras regiões ninguém conhece de verdade aquela abóbora redonda e doce. A realidade é que moranga é plantada em todo o Sul, e em partes de SP, mas é o nome gaúcho que a identifica simbolicamente, moranga virou marca regional de culinária e tradição.
Abóbora, Jerimum ou Moranga: Jerimum e a Herança Africana Oculta
Enquanto abóbora e moranga vêm do Tupi, jerimum é também parte de uma história afro-brasileira. No Nordeste, onde a população escravizada e posteriormente afrodescendente sempre foi numerosa, jerimum faz parte de um acervo de palavras e práticas culinárias africanas mescladas com o Tupi. Receitas como “jerimum com carne de sol” refletem essa fusão de técnicas indígenas de cultivo com técnicas africanas de preparo e conservação de alimentos. A questão abóbora, jerimum ou moranga revela, portanto, camadas de história que vão além do Tupi, jerimum é também um fio que conecta o Brasil ao continente africano através da comida.
O Que Você Aprendeu
- Abóbora é o termo genérico predominante em São Paulo, Minas Gerais, Centro-Oeste e Rio de Janeiro, a rota dos bandeirantes e da colonização paulista.
- Jerimum é a palavra nordestina e amazônica, marcada por identidade culinária e herança indígena intensa, com componentes de influência africana.
- Moranga é o nome gaúcho e catarinense, particularmente para a Cucurbita maxima, marcado pela colonização açoriana e pelo conhecimento botânico diferenciado do Sul.
- As três palavras vêm do Tupi, “ababura”, “yurimum” e “morang”, adotadas pelos colonizadores portugueses que não tinham nome próprio para essa cucurbitácea.
- A distribuição regional reflete rotas de colonização: bandeirante (abóbora), nordestina-amazônica (jerimum) e açoriana-gaúcha (moranga).
Perguntas Frequentes
Qual é a diferença entre abóbora, jerimum e moranga?
Abóbora é um termo genérico para cucurbitáceas, predominante em SP/MG/Centro-Oeste. Jerimum é o nome nordestino e amazônico, marcado por tradição culinária e herança indígena. Moranga é o nome do Sul, especificamente para Cucurbita maxima (a abóbora redonda grande).
Por que o Rio Grande do Sul diz moranga e o resto do Brasil diz abóbora?
Porque a colonização do Sul (séculos XVII-XVIII) desenvolveu um conhecimento botânico diferenciado das variedades de cucurbitácea. Os gaúchos usavam “moranga” para designar especificamente a Cucurbita maxima (redonda, grande, vermelha ou alaranjada), enquanto abóbora permanecia como termo genérico em outras regiões.
Jerimum vem do Tupi ou do africano?
Jerimum vem do Tupi “yurimum” ou “jerimu”. Porém, a consolidação da palavra no Nordeste está associada também a práticas culinárias que incorporam técnicas africanas de preparação. A palavra é Tupi, mas a tradição que a cerca é afro-indígena.
Posso usar qualquer uma dessas palavras em qualquer lugar do Brasil?
Tecnicamente sim, mas regionalmente não. Se você está em Salvador e pede “abóbora” no mercado, o vendedor pode o entender, mas vai estranhamente. Se você está em São Paulo e pede “jerimum”, igualmente. O padrão regional é vivo, cada palavra marca um lugar e uma pertença cultural.
Atlas Linguístico do Brasil (ALiB) documenta essas três variantes?
Sim. O ALiB, projeto de referência para a geolinguística brasileira, documenta a distribuição regional de abóbora, jerimum e moranga, confirmando os padrões de uso que exploramos neste artigo.
Conclusão: Abóbora, Jerimum ou Moranga e a Herança Tupi no Português Brasileiro
Dizer abóbora, jerimum ou moranga é mais que escolher entre três palavras diferentes, é evocar três histórias regionais de um Brasil que se faz através da língua. Cada uma delas nasceu numa época específica, consolidou-se numa região específica, e permanece viva porque as pessoas que habitam essas regiões continuam usando-as, cozinhando com elas, transmitindo-as de geração em geração.
Nenhuma das formas, abóbora, jerimum ou moranga, é “correta” e as outras “erradas”. Cada uma delas é correta no seu lugar, no seu tempo, na sua região, na sua tradição. O que importa é reconhecer que essas diferenças não são acasos linguísticos, mas registros vivos de como o Brasil foi construído: através da fusão de povos, de línguas, de saberes práticos que se consolidaram em palavras que ainda hoje carregam a marca de onde vieram.
Da próxima vez que você ouve alguém do Nordeste dizer “jerimum”, ou um gaúcho dizer “moranga”, ou um paulista dizer “abóbora”, você saberá que está ouvindo séculos de história, Tupi, português, africano, condensados em uma única palavra. E essa é, talvez, a beleza mais profunda do português brasileiro: ser uma língua que diz muitas coisas ao mesmo tempo, em lugares diferentes, usando palavras que parecem iguais mas marcam, inevitavelmente, o lugar de quem as pronuncia.
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Fontes e Referências
- Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa. CUNHA, Antônio Geraldo da. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010. Tipo de consulta: verbete “abóbora”, “jerimum” e “moranga”, etimologia e raízes.
- Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro de Salles. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. Tipo de consulta: acepções e datações de “abóbora”, “jerimum” e “moranga”.
- Michaelis Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. Disponível em: https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/abobora/ Tipo de consulta: definição e usos contemporâneos de “abóbora”, “jerimum” e “moranga”.
- Origem da Palavra. Disponível em: https://origemdapalavra.com.br/palavras/abobora/ Tipo de consulta: etimologia das palavras “abóbora” (latim peponem), “jerimum” (tupi yeri-mu) e “moranga”.
- Dicio, Dicionário Online de Português. Disponível em: https://www.dicio.com.br/abobora/ Tipo de consulta: definição e variações regionais para a cucurbitácea no Brasil.
Ana Beatriz Lemos é pesquisadora da linguagem e autora do projeto Palavras com História, dedicado a revelar a origem, a evolução e os sentidos históricos das palavras da língua portuguesa.







