Diferença entre Verdade e Opinião: Da Aletheia Grega ao Debate Contemporâneo

Diferença entre Verdade e Opinião — desvelamento claro versus interpretação pessoal

Quando Parmênides separou o “caminho da verdade” do “caminho da opinião”, há mais de dois mil anos, inventou a diferença entre verdade e opinião que ainda domina nossa cultura. Mas há um detalhe que muda tudo: os gregos não chamavam a verdade de veritas. Chamavam de aletheia, que significa, literalmente, “saída do esquecimento”. Os romanos traduziram aletheia para veritas, que quer dizer “correspondência com a coisa”. Duas palavras em idiomas diferentes. Duas filosofias inteiras. O grego perguntava: “De que verdade esqueci?” O latim perguntava: “A verdade combina com a realidade?” Neste artigo, exploraremos a diferença entre verdade e opinião não apenas nos dicionários, mas nas raízes do pensamento ocidental, e descobriremos por que, na era da pós-verdade, retornamos à doxa, aquela opinião compartilhada que Platão desprezava.

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A Raiz de Verdade: Aletheia, Veritas e Duas Filosofias da Revelação

Duas tradições, duas palavras: “Verdade” vem do latim veritas (correspondência, adequação), uma filosofia romana. Mas os gregos usavam aletheia (ἀλήθεια: a-lethe = “não-esquecimento”, desvelamento), uma filosofia contemplativa. A diferença entre verdade e opinião começa nessa divisão entre duas visões radicalmente distintas do que significa ser verdadeiro.

A palavra portuguesa “verdade” vem de veritas, e aqui começam os problemas. Porque quando dizemos que algo é “verdade”, estamos falando como romanos, não como gregos. Veritas é correspondência, adequação, reflexo. Santo Tomás de Aquino cristalizou isso em uma fórmula que moldou todo o pensamento católico e escolástico: “adaequatio rei et intellectus”, a adequação da coisa ao intelecto. Para Santo Tomás, verdade é quando seu pensamento combina com a realidade. É um espelho. É uma fotografia. É um mapa que coincide com o território.

Mas os gregos tinham outra ideia inteiramente. A aletheia (ἀλήθεια) vinha de a-lethe, literalmente “a negação do Lethe”. E quem era Lethe? O rio da mitologia grega que torna as almas esquecidas, aquele que Ulisses devia evitar quando descia aos Infernos. Lethe é o esquecimento. A-lethe é sair do esquecimento. Aletheia não é “correspondência com a coisa”, é revelação, desvelamento, disclosure. É a verdade como um processo de desmascarar, de desocultar, de trazer à luz o que estava escondido.

Essa diferença é monumental. Veritas pressupõe um observador externo que pode comparar seus pensamentos com as coisas, uma atitude muito romana, muito jurídica, muito cientificista. Aletheia pressupõe alguém que estava imerso no esquecimento e de repente vê, uma atitude muito grega, muito contemplativa, muito mística.

Os filósofos pré-socráticos gregos, especialmente Parmênides, organizavam o conhecimento em torno dessa revelação. Havia o caminho da verdade (aletheia), que levava ao ser eterno e imóvel, e havia o caminho da opinião (doxa), que levava apenas ao que parecia. Heráclito, Empédocles, todos eles pensavam em termos de aletheia, não de veritas. O verbo grego aletheuein significa “falar verdade”, e essa fala era concebida como um ato de revelação, não de correspondência.

É verdade que Platão, posteriormente, começaria a elaborar a ideia de que a verdade (aletheia) era o conhecimento das Formas, das Ideias eternas e imutáveis. Mas mesmo assim, permanecia a noção grega de que verdade era revelação. Platão fala da anamnese, a reminiscência, a volta à memória do que a alma já conhecia, não de uma simples observação do mundo. O conhecimento verdadeiro, em Platão, é um despertamento, um retorno a si mesmo, uma saída da ignorância.

Quando os romanos, séculos depois, traduziram aletheia para veritas, perdemos essa dimensão de revelação e desvelamento. Ganhamos clareza jurídica, objetividade administrativa, mas perdemos o mistério. Veritas é prático, é verificável, é funcionário. Aletheia é contemplativo, é existencial, é poeta. E quando os medievais cristãos herdaram tanto do grego quanto do latino, tentaram reconciliar os dois: a verdade como revelação divina (aletheia) e a verdade como conformidade das coisas criadas com a sabedoria divina (veritas).

Infográfico comparativo da diferença entre verdade e opinião mostrando raízes latinas veritas e opinio em duas colunas

Quadro comparativo entre veritas e opinio, destacando como a correspondência se opõe à suposição desde a origem latina.

A Raiz de Opinião: Doxa e o Que Parece Verdadeiro

O mundo do parecer: “Opinião” vem do latim opinio, “julgamento baseado em probabilidade, não em certeza”. Mas opinio é uma tradução do grego doxa (δόξα: dokein, “parecer”). Para os gregos, doxa era o que parece verdadeiro, o que é compartilhado socialmente, o que é credível. A diferença entre verdade e opinião é a diferença entre o desvelado e o que parece.

Se verdade é aletheia ou veritas, o que é opinião? A palavra portuguesa “opinião” vem do latim opinio, que quer dizer “julgamento baseado em probabilidade, não em certeza”. Mas opinio é uma tradução, muitas vezes inadequada, do grego doxa (δόξα). E doxa tem uma história muito mais rica que opinio nos faz pensar.

Doxa vem de dokein, que significa “parecer”, “ter aparência”, “parecer verdadeiro”. Não é um julgamento completamente arbitrário ou irracional. Doxa é o que parece, e “parecer” para os gregos era algo importante. Doxazo era acreditar, ter uma opinião, julgar. Uma doxazon era uma opinião comum, uma crença compartilhada. A diferença entre verdade e opinião, para os gregos, era então esta: aletheia é o que é, o que está revelado, o que saiu do esquecimento. Doxa é o que parece, o que é credível, o que é partilhado na comunidade.

Platão estava obsecado em separar as duas, e em favorecer verdade sobre opinião. No mito da caverna, os prisioneiros acorrentados veem apenas sombras, doxa, opinião pura. Quando se libertam e veem o fogo, têm uma opinião melhor. Quando saem da caverna e veem o sol, finalmente veem a verdade, aletheia. Mas observe: até a “opinião melhor”, no caminho da libertação, Platão ainda chamava de doxa. Havia uma doxa reta (orthos doxa), uma opinião verdadeira baseada em razão, mas que não era ainda episteme, conhecimento certo. Isso ilustra perfeitamente a diferença entre verdade e opinião no pensamento grego: opinião é sempre provisória, sempre mediada pela aparência, sempre coletiva. Verdade é absoluta, imediata, individual.

Aristóteles herdou essa estrutura, mas começou a dar mais valor a doxa. Na Retórica, Aristóteles explica que o orador não persuade pelo conhecimento (episteme), mas pela opinião, doxa. Porque as pessoas não conhecem filosofia; elas acreditam. A retórica trabalha com verossimilhança, com o provável, com o que parece verdadeiro. E isso é legítimo, é como funciona a vida política, a vida social, a vida comum.

Os sofistas gregos, muito antes de Platão, também trabalhavam com doxa. Protágoras, o sofista famoso, dizia que “o homem é a medida de todas as coisas”, uma declaração que Platão odiava. Mas para Protágoras, isso significava que não há verdade objetiva e eterna (aletheia); há apenas opiniões, algumas melhores que outras, mas todas relativamente verdadeiras.

Timeline da diferença entre verdade e opinião de Parmênides à pós-verdade em três marcos filosóficos

Evolução do debate entre verdade e opinião, de Parmênides ao fenômeno da pós-verdade, em três marcos decisivos.

Comparação Lado a Lado: Diferença entre Verdade e Opinião nas Raízes

A diferença entre verdade e opinião começa muito antes de qualquer debate contemporâneo. Começa na própria estrutura das línguas e das filosofias que as precedem. Verdade, em seu registro etimológico profundo, carrega duas tradições que nunca se reconciliaram completamente. Aletheia é desvelamento, revelação, saída da ignorância, uma verdade que é processo. Veritas é correspondência, adequação, espelho, uma verdade que é estática. Opinião, por sua vez, vem de doxa, que é o que parece, o que é compartilhado, o que é verossímil. Não é simplesmente “falso”. Doxa é o domínio do provável, do consensual, do comunicável. Quando você compreende essas raízes, vê que a diferença entre verdade e opinião não é binária, mas estrutural.

TermoRaizIdioma e PeríodoSignificado OriginalSignificado Moderno
Verdadeveritas (lat.) / aletheia (grego)Latim/Grego, séc. I a.C. (Platão, Cícero)O que não está oculto; desvelamento do ser; aquilo que corresponde à realidadeCorrespondência entre o que é dito e a realidade; facto ou princípio que se reconhece como certo
Opiniãoopinio, de opinari (lat.)Latim, período clássico (Platão: doxa)Julgar, supor, avaliar; aquilo que parece verdadeiro mas pode estar enganadoParecer pessoal; julgamento que não é baseado em conhecimento certo, mas em aparência

Verdade desvelada, opinião suposta. Na grega clássica: aletheia (verdade) versus doxa (opinião), a distinção fundamental de Parmênides.

Diferenças Conceituais no Uso Moderno

Mapa conceitual da diferença entre verdade e opinião mostrando três posições epistemológicas ligadas a cada conceito

Mapa conceitual das posições epistemológicas sobre verdade e opinião, do realismo ao construtivismo.

No uso moderno, tendemos a simplificar demais a diferença entre verdade e opinião. A verdade é “verdadeira porque combina com a realidade”; a opinião é “apenas uma crença pessoal, potencialmente falsa”. Mas essa simplicidade esconde camadas profundas de significado que a etimologia revela. Quando dizemos que algo é “verdade”, frequentemente estamos dizendo que é objetivo, verificável, independente de perspectiva. Uma verdade científica, que a água ferve a cem graus Celsius ao nível do mar, é verdade porque observações repetidas confirmam isso. Quando dizemos que algo é “opinião”, frequentemente estamos dizendo que é subjetivo, perspectival, baseado em preferência pessoal ou crença.

Mas essa diferença entre verdade e opinião contemporânea ocultava a existência de um meio-termo: o que os antigos chamavam de opinião fundamentada, ou doxa reta em grego. Uma opinião fundamentada é aquela que, embora não seja conhecimento certo (episteme), é baseada em boas razões, em observação, em experiência. Quando seu médico diz “em minha opinião, você tem uma inflamação”, ele não está sendo vago ou arbitrário. Ele está praticando a doxa reta, uma opinião baseada em conhecimento, experiência e observação.

A diferença entre verdade e opinião modernas também sofreu com o que poderíamos chamar de “regressão à doxa“, ou o que filósofos contemporâneos chamam de “pós-verdade”. Se na era moderna confiávamos em fatos objetivos (veritas) para guiar decisões públicas, em um mundo saturado de informação, contradições e perspectivas conflitantes, voltamos a confiar em narrativas credíveis, em o que nosso grupo acredita, em o que parece verdadeiro, em doxa. As redes sociais, com seus algoritmos que amplificam concordância, transformam opiniões em verdades compartilhadas. Voltamos inconscientemente ao mundo grego. A ironia, porém, é que no mundo grego, havia pelo menos consciência dessa diferença. Havia uma pedagogia de como passar de doxa para aletheia, de opinião para verdade.

ContextoUso de VerdadeUso de OpiniãoDiferença Conceitual
Ciência“É verdade que a água ferve a 100°C”“Minha opinião é que devemos fazer mais testes”Verdade = fato verificável; Opinião = juízo metodológico
Política“É verdade: a inflação subiu 5%”“Minha opinião: isso resulta de más políticas”Verdade = dado factual; Opinião = interpretação
Estética“Há consenso: este quadro é importante”“Minha opinião: acho feio demais”Verdade = reconhecimento coletivo; Opinião = preferência pessoal
Ética“É verdade: prejudicar inocentes é errado”“Minha opinião: neste caso, há contexto”Verdade = princípio fundamental; Opinião = aplicação contextual

A verdade repousa sobre desvelamento e verificação; a opinião, sobre suposição e interpretação.

Curiosidades Etimológicas sobre Verdade e Opinião

Três fatos surpreendentes: Parmênides escreveu há 2.500 anos e inventou essa divisão. Segundo: em português, “verdade” perdeu a dimensão grega de aletheia (desvelamento) quando herdou veritas (correspondência). Terceiro: a pós-verdade é um retorno à doxa, não uma invenção contemporânea, mas um regresso ao mundo antigo.

Por que Aletheia Significa “Não-Esquecimento”

Uma das curiosidades mais profundas é que aletheia, a palavra grega para verdade, é etimologicamente “a-lethe”, a negação do Lethe, o rio do esquecimento na mitologia grega. Para os gregos, verdade não era simplesmente “correspondência com fatos”. Era um retorno à lembrança, um despertar do que estava oculto. Quando você compreende isso, vê que a verdade grega é fundamentalmente diferente da verdade romana. Para um grego, descobrir uma verdade era como sair de um sonho, como lembrar de algo que a alma já conhecia. Para um romano, era comparar dois espelhos. Duas metáforas inteiras.

Como Doxa Se Tornou Retórica

Outra curiosidade é que os sofistas gregos, frequentemente desprezados por filósofos como Platão, reabilitaram doxa como legítima. Protágoras argumentava que não havia verdade absoluta, havia apenas opiniões, algumas melhor fundadas que outras. Essa posição parecia relativista demais a Platão. Mas Aristóteles, mais pragmático que seu mestre, reconheceu que a retórica, a arte de persuadir, funciona exatamente com doxa. Você não persuade pessoas com conhecimento certo; persuade com opiniões verossímeis, com o que parece credível. E isso é não apenas legítimo, mas necessário para a vida política e social.

A Pós-Verdade Como Retorno à Doxa

A curiosidade mais contemporânea é que a “pós-verdade” é, etimologicamente, um retorno à doxa, não uma invenção contemporânea, mas um regresso ao mundo grego antigo. Se na era moderna confiávamos em fatos objetivos para estruturar a realidade, em redes sociais e algoritmos, retornamos a um mundo onde o que importa é o que parece verdadeiro, o que é compartilhado, o que seu grupo acredita. Uma narrativa não precisa ser verdadeira (aletheia) ou corresponder à realidade (veritas). Precisa apenas parecer verdadeira (doxa) dentro de uma comunidade. Os antigos retóricos sabiam disso há 2.500 anos. A pós-verdade apenas torna isso consciente em escala global.

Erros Comuns na Diferença entre Verdade e Opinião

Três equívocos persistentes: confundir a diferença entre verdade e opinião com arbitrariedade total; afirmar que “verdade é sempre objetiva” ou “opinião é sempre subjetiva”; tratar a pós-verdade como apenas um problema contemporâneo.

Confundir Opinião Com Arbitrariedade Total

O erro mais frequente é confundir opinião com arbitrariedade total. Uma opinião fundamentada em razão, observação e experiência é legítima, não é “apenas uma opinião”. Quando um especialista diz “em minha opinião profissional”, não está sendo vago. Está reconhecendo que, embora baseada em conhecimento sólido, sua conclusão deixa espaço para perspectivas alternativas e revisão. A diferença entre verdade e opinião não é uma diferença entre “certo e errado”, mas entre “necessário e possível”.

Afirmar que Verdade é Sempre Objetiva e Opinião Sempre Subjetiva

Um segundo equívoco é afirmar que verdade é sempre objetiva e opinião sempre subjetiva. A realidade é mais nuançada. Mesmo fatos “objetivos”, dados estatísticos, descobertas científicas, são interpretados através de perspectivas. Inversamente, uma opinião bem fundamentada converge em objetividade: os melhores economistas, ainda que partindo de diferentes perspectivas, chegam frequentemente a conclusões similares sobre certos fenômenos. A diferença entre verdade e opinião não é sobre objetividade vs. subjetividade. É sobre grau de adequação com a realidade e grau de certeza que se reclama.

Tratar a Pós-Verdade Como Problema Apenas Contemporâneo

Um terceiro equívoco é tratar a pós-verdade como um problema puramente contemporâneo, fruto de redes sociais e “fake news”. Mas se compreendemos a etimologia, vemos que a pós-verdade é um retorno antigo. Os gregos já sabiam que persuasão não requer verdade absoluta, requer verossimilhança, requer crença compartilhada. As redes sociais apenas amplificam um mecanismo que sempre existiu. O que mudou não é o mecanismo, é a escala e a velocidade.

Quando Usar Verdade e Quando Usar Opinião

Use “verdade” quando o contexto for de adequação clara com a realidade, de consenso estabelecido, de verificabilidade possível. “É verdade que a Brasília é a capital do Brasil.” “É verdade que a escravidão causou sofrimento.” Nesses contextos, você está reclamando adequação entre as palavras e a realidade, e essa adequação é suficientemente clara que reclama o nome de verdade, não apenas opinião. Use “opinião” quando há incerteza legítima, quando especialistas divergem, quando novos dados podem mudar as conclusões. “É minha opinião que a economia melhorará se aumentarmos exportações.” “É opinião de muitos que as redes sociais prejudicam a saúde mental.” Nesses contextos, você está expressando um juízo baseado em razão e evidência, mas que reconhece sua falibilidade.

Há também contextos mistos, onde você precisa separar o fato estabelecido da interpretação. “É verdade que há mudança climática, mas há opinião sobre seus graus e causas.” “É verdade que há diferenças biológicas entre sexos, mas há opinião sobre suas implicações sociais.” Essa separação é importante porque mantém clareza sobre onde há consenso e onde há debate legítimo. A diferença entre verdade e opinião também se marca em responsabilidade. Se você reclama verdade, reclama a obrigação de que seja verdade, você pode ser questionado, pode ser solicitado a justificar. Se você oferece opinião, reclama menos certeza, mas também menos responsabilidade pelo que é verdade e falso.

O Que Você Aprendeu sobre a Diferença entre Verdade e Opinião

  • A diferença entre verdade e opinião está inscrita nas raízes: aletheia (grega: desvelamento) e veritas (latina: correspondência) vs. doxa (grega: o que parece) e opinio (latina: julgamento provável).
  • Verdade é uma busca de adequação com a realidade, mas essa adequação pode ser revelação (aletheia), correspondência (veritas), ou conformidade com a melhor evidência disponível.
  • Opinião é um juízo perspectival, mas pode ser bem ou mal fundado, próximo ou distante da verdade, baseado em razão ou em preconceito.
  • Parmênides separou o caminho da verdade do caminho da opinião há 2.500 anos, uma distinção que permanece estruturando como pensamos.
  • A pós-verdade é um retorno à doxa, ao mundo onde o que importa é o que parece verdadeiro e é compartilhado pela comunidade, não o que é verificavelmente verdadeiro.
  • Uma opinião fundamentada não é “meramente opinião”, é conhecimento legítimo que deixa espaço para revisão e perspectivas alternativas.
  • A diferença entre verdade e opinião não é moral, não é que uma seja “boa” e outra “má”. É estrutural, modal, epistemológica.

Perguntas Frequentes sobre a Diferença entre Verdade e Opinião

Qual é a diferença entre verdade e opinião de forma simples?

Verdade (veritas/aletheia) significa aquilo que é desvelado, o que não está oculto, correspondência com a realidade. Opinião (opinio) é suposição, o que parece verdadeiro, baseado em perspectiva e contexto. A diferença entre verdade e opinião nasceu das raízes etimológicas: aletheia grega (desvelamento) vs. doxa grega (o que parece), traduzidas para veritas e opinio em latim.

O que significa aletheia em grego?

Aletheia (ἀλήθεια) significa literalmente “a-lethe”, “não-esquecimento”, saída do Lethe, o rio da mitologia grega que causa esquecimento. Para os antigos gregos, verdade (aletheia) era desvelamento, revelação, disclosure, não simples correspondência com um fato. Era uma verdade contemplativa, quase mística, que envolvia saída da ignorância. Esse sentido está completamente perdido quando traduzimos aletheia para veritas, a palavra latina que significa correspondência com a coisa.

De onde vem a palavra opinião?

A palavra portuguesa “opinião” vem do latim opinio, que significa “julgamento baseado em probabilidade, não em certeza”. Opinio é uma tradução inadequada do grego doxa (δόξα), que vem do verbo dokein, “parecer”, “ter aparência”, “parecer verdadeiro”. Para os gregos, doxa era especialmente o que é compartilhado socialmente, o que parece verdadeiro para uma comunidade, o que é credível. A diferença entre verdade e opinião se marca já nessa etimologia: aletheia é o desvelado, doxa é o que parece.

O que é pós-verdade do ponto de vista etimológico?

A pós-verdade é, etimologicamente, um retorno à doxa, ao mundo onde o que importa não é verdade absoluta (aletheia ou veritas), mas o que parece verdadeiro, o que é compartilhado, o que é credível para um grupo. As redes sociais amplificam doxa: uma narrativa não precisa ser verdadeira para ser retuitada ou compartilhada. Precisa apenas parecer verdadeira para sua comunidade. A pós-verdade apenas torna consciente em escala global o que os antigos retóricos e sofistas já sabiam.

Toda opinião é inferior à verdade?

Não. Uma opinião bem justificada, baseada em razão, observação, experiência, consenso especializado, é uma forma de conhecimento legítima, mesmo que não seja certeza. A diferença entre verdade e opinião não é uma diferença binária entre certo e errado, mas uma diferença modal entre necessário e possível. Uma opinião fundamentada deixa espaço para revisão, para perspectivas alternativas, para debate, mas isso não a torna inferior. É isso que torna possível o progresso, a educação, o diálogo.

Conclusão: Compreendendo a Diferença entre Verdade e Opinião

Quando Parmênides separou o caminho da verdade do caminho da opinião, há 2.500 anos, estabeleceu uma distinção que nunca deixaria de importar. Mas a diferença entre verdade e opinião não é simples, não é binária, e não é a mesma em grego e em latim, em Platão e em Santo Tomás, na ciência moderna e na era pós-verdade. Verdade é sempre uma busca de adequação com o real, mas essa adequação pode ser revelação (aletheia), correspondência (veritas), ou conformidade com a melhor evidência disponível. Opinião é sempre um juízo perspectival, mas pode ser bem ou mal fundado, próximo ou distante da verdade.

Os gregos chamavam a verdade de aletheia, saída do esquecimento. Os romanos a chamaram de veritas, espelho da coisa. Duas metáforas, duas filosofias. E a opinião, doxa, era apenas o que parecia verdadeiro, até que a retórica lhe devolveu a dignidade. Na era da pós-verdade, compreender essa história é compreender por que a diferença entre verdade e opinião nunca foi mais urgente: porque voltamos ao mundo grego, onde o que importa é o que parece, o que é compartilhado, o que a comunidade acredita que é verdade.

A diferença entre verdade e opinião não é apenas uma questão de palavras. É o registro linguístico de duas estruturas radicalmente diferentes no pensamento ocidental. Compreender essa diferença significa compreender não apenas filosofia ou etimologia, mas como nos relacionamos com o conhecimento, como tomamos decisões, como nos comunicamos em um mundo saturado de informação e perspectivas conflitantes.

Se você reconheceu a diferença entre verdade e opinião como uma tensão entre desvelamento (aletheia) e aparência (doxa), entre correspondência com a realidade (veritas) e julgamento provável (opinio), então integrou uma das distinções mais profundas do pensamento ocidental. E se percebeu que a pós-verdade é um retorno antigo, não uma invenção contemporânea, então compreendeu por que as redes sociais funcionam como funcionam, porque amplificam doxa, o que parece, o que é credível, o que nossa comunidade acredita. A história importa. As palavras importam. E a diferença entre verdade e opinião permanece viva, moldando como pensamos no século XXI.

Fontes e Referências

  1. Liddell, H. G. & Scott, R. A Greek-English Lexicon. Disponível em: https://www.perseus.tufts.edu/hopper/text?doc=Perseus:text:1999.04.0057 Tipo de consulta: etimologia grega de aletheia, doxa, dokein.
  2. Ernout, A. & Meillet, A. Dictionnaire étymologique de la langue latine: Histoire des mots. Disponível em: https://www.worldcat.org/title/dictionnaire-etymologique-de-la-langue-latine/oclc/895862 Tipo de consulta: etimologia latina de veritas, opinio, opinari.
  3. Houaiss, Antônio. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Disponível em: https://houaiss.uol.com.br/ Tipo de consulta: evolução semântica de verdade e opinião no português.
  4. Online Etymology Dictionary (Etymonline). Disponível em: https://www.etymonline.com/word/truth https://www.etymonline.com/word/opinion Tipo de consulta: trajeto etimológico de truth (veritas) e opinion (opinio).
  5. Parmênides. Fragmentos. Disponível em: https://plato.stanford.edu/entries/parmenides/ Tipo de consulta: fragmentos pré-socráticos sobre aletheia vs. doxa.
  6. Platão. República. Disponível em: https://plato.stanford.edu/entries/plato/ Tipo de consulta: mito da caverna, divisão entre doxa e episteme.
  7. Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Disponível em: https://dicionario.priberam.org/verdade https://dicionario.priberam.org/opinião Tipo de consulta: definições e variações de verdade e opinião na língua portuguesa.

Ana Beatriz Lemos é pesquisadora da linguagem e autora do projeto Palavras com História, dedicado a revelar a origem, a evolução e os sentidos históricos das palavras da língua portuguesa.

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