Há poucas palavras cuja origem seja tão disputada, e tão reveladora do que é o próprio risco. Risco chegou ao português no século XV pelas mãos dos banqueiros italianos que financiavam as caravelas da expansão: o termo risico nomeava a incerteza do investimento marítimo, a aposta sobre navios que podiam não voltar. Mas de onde vinha o italiano risico? Dois campos de origem, duas filosofias opostas do perigo.
A teoria árabe propõe que risico vem do árabe rizq: o que Deus provê a cada ser, a porção divina de cada um. Correr um risco seria, nessa visão, confiar na providência: o resultado incerto do negócio como dádiva ou não-dádiva de Deus. A teoria latina propõe que risico vem do latim resecum: o recife que corta navios, a pedra oculta que rasga o casco. O risco como obstáculo físico concreto, o perigo que a experiência do mar tornou palavra. A origem da palavra risco ainda não tem vencedor. Mas o debate entre as duas teorias é, em si, uma história sobre o que significa enfrentar o desconhecido.
No mundo contemporâneo, risco virou termo técnico de finanças, ciência atuarial e gestão. Calcula-se probabilidade de perda em pontos-base, modela-se exposição em planilhas, contrata-se seguro para tudo. Mas a palavra ainda guarda os dois mundos antigos: a aposta diante do desconhecido e a confiança em algo maior que o cálculo. Caravelas, banqueiros, recifes que cortam cascos. Risco chegou ao português no século XV pelo italiano risico, raiz disputada entre o árabe rizq (dádiva divina) e o latim resecum (o recife).
Duas Teorias, Duas Filosofias do Risco
Em etimologia, o caminho importa tanto quanto o destino. O que segue são os dois percursos possíveis que explicam como chegamos à palavra que hoje usamos para nomear o imprevisível.
Rizq: O Risco como Presente de Deus
Para o mercador árabe medieval, o resultado do negócio não dependia só do vento ou da rota: dependia do que Deus havia destinado. É essa lógica que faz de rizq um dos conceitos centrais da teologia islâmica, a porção que cada ser recebe, o sustento, os meios de vida, a providência divina que nenhum esforço humano substitui. O rizq não é conquistado: é destinado. Quem trabalha, quem comercia, quem navega está apenas tentando encontrar o que Deus determinou que encontraria.
Essa visão teológica do rizq encontrou o comércio mediterrâneo. Mercadores árabes e venezianos ou genoveses negociavam nos portos do Mediterrâneo desde o século VIII, seda, especiarias, ouro, crédito. No encontro dessas línguas e culturas, a palavra rizq teria adquirido o sentido comercial de “resultado incerto do negócio”: a porção que Deus pode ou não conceder ao mercador que investe. O italiano teria absorvido a palavra como risico: o resultado imprevisível, a aposta que pode ou não se concretizar.
Na teoria árabe, o risco original carrega uma conotação quase positiva: correr um risco é colocar-se na posição de receber o que Deus destinou. É confiança, é abertura ao destino. O perigo não é o centro: é o contexto de uma possibilidade.
Resecum: O Recife que Corta Navios
A teoria latina parte de outro ponto de partida: o verbo resecare (cortar, aparar, ceifar), que produziria o substantivo *resecum para designar o que corta, especificamente, na navegação mediterrânea, o recife ou a pedra submersa que rasga o casco dos navios. O risco, nessa teoria, era um perigo físico muito concreto: a rocha invisível que destrói.
Navegadores medievais teriam nomeado assim o perigo náutico mais temido, não as tempestades visíveis, mas os obstáculos ocultos. De *resecum para o italiano risico, o percurso semântico seria direto: “o recife que corta” → “o perigo que afunda” → “qualquer perigo imprevisível”.
Na teoria latina, o risco original carrega uma conotação negativa e prática: é o obstáculo que pode destruir o que você construiu, o perigo que exige vigilância e precaução. A filosofia não é a da confiança, mas a da consciência do perigo.
| Critério | Teoria Árabe (rizq) | Teoria Latina (resecum) |
|---|---|---|
| Origem | Árabe rizq (providência divina) | Latim *resecum (de resecare = cortar) |
| Sentido base | O que Deus provê a cada pessoa | O recife que corta navios |
| Conotação | Positiva: porção destinada | Negativa: perigo físico |
| Filosofia | Teológica: confiar no destino | Prática: navegar com cuidado |
| Contexto | Comércio mediterrâneo árabe-cristão | Navegação e perigos do mar |
| Status | Hipótese bem documentada | Hipótese bem documentada |
| Consenso | Nenhuma teoria é definitiva | Nenhuma teoria é definitiva |
Tabela 1: As duas teorias sobre a origem de risco, duas filosofias opostas do mesmo conceito

Dois homônimos, uma dádiva árabe, o naufrágio como aposta e a pedra oculta: quatro revelações da origem da palavra risco.
Risco e as Navegações Portuguesas
Por que Risco Entrou com as Caravelas
Risco é uma palavra da Era dos Descobrimentos. Antes do século XV, o português não a usava com sentido de perigo, e a ausência da palavra não é coincidência. O vocabulário do risco entrou no português pelo mesmo canal que financiou as expedições: os banqueiros italianos de Gênova e Veneza que negociavam os créditos para as viagens ao desconhecido.
O modelo de financiamento era simples e brutal. Um banqueiro investia em uma expedição. Se o navio voltava, ele recebia o capital mais um percentual. Se o navio naufragava, o capital estava perdido. O risico do banqueiro veneziano era literalmente o risco da navegação: a probabilidade de destruição multiplicada pelo valor investido. O vocabulário náutico e o vocabulário financeiro fundiram-se numa única palavra.
Quando o português João de Barros, em sua Década da Ásia, escreveu sobre os riscos das viagens marítimas, estava usando uma palavra que os próprios navegadores haviam importado do italiano. Risco chegou ao português no momento em que Portugal inventou a ideia moderna de projeto de alto risco, e a palavra nunca mais o abandonou.
Do Mar ao Mercado: A Evolução de Risco
Risco percorreu três estágios semânticos em poucas gerações. Primeiro, era o perigo náutico específico, o recife, a tempestade, o pirata, o naufrágio: os riscos do mar. Depois, expandiu para o risco financeiro, o investimento que pode se perder, a aposta que pode falhar: os riscos do negócio. Por fim, generalizou para qualquer situação de incerteza com possibilidade de perda: os riscos da vida.
O seguro marítimo, inventado pelos italianos medievais para gerir o risco das expedições, foi o primeiro “gerenciamento de riscos” da história. Os contratos de assecuratio marítima estabeleciam prêmios em função do risico da viagem: percurso, época do ano, reputação do navio, experiência do capitão. A palavra das caravelas tornou-se a palavra dos atuários, dos analistas, dos gestores. Risk management, risk assessment, risk appetite: a terminologia do mundo corporativo global usa a mesma palavra que os banqueiros genoveses inventaram para apostar em navios que podiam não voltar.

Quatro marcos na viagem de rizq a risco: do comércio árabe no Mediterrâneo ao vocabulário do mundo corporativo do século XXI.
Dois Riscos, Duas Palavras
Esta é a revelação mais surpreendente da origem da palavra risco: há dois riscos no português, e eles não têm nada em comum.
Risco (perigo) é o que se descreveu até aqui: italiano risico → português, via as caravelas. Risco (traço desenhado, linha) vem de outro lugar completamente diferente: de riscar, que descende do germânico *writsjan (gravar com instrumento pontudo, marcar) ou do latim *rasicare (raspar, riscar com objeto afiado). São duas palavras que soam igual, têm grafias idênticas e origens radicalmente separadas, o que os linguistas chamam de homônimos.
Quando um arquiteto “faz um risco no papel” para esboçar um projeto, está usando a palavra germânica ou latina da gravação. Quando decide depois que aquele projeto “corre um risco” de ser reprovado, usa a palavra italiana do perigo marítimo. Duas palavras, um som, dois mundos.
| Critério | Risco (perigo) | Risco (traço/linha) |
|---|---|---|
| Origem | Italiano risico (árabe rizq ou latim resecum) | Germânico *writsjan ou latim *rasicare |
| Verbo base | Arriscar | Riscar |
| Significado | Perigo, ameaça, possibilidade de perda | Traço, linha desenhada; rascunho |
| Exemplo | “Correr um risco” | “Fazer um risco no papel” |
| Período PT | Séc. XV–XVI (Era das Navegações) | Provavelmente anterior; uso medieval |
| Família | arriscar, arriscado, risco calculado | riscar, riscado, riscunho |
Tabela 2: Os dois homônimos risco, dois perigos, dois lápis, duas origens completamente separadas
Palavras da Mesma Família de Risco
| Palavra | Classe | Significado |
|---|---|---|
| risco | Substantivo | Perigo; probabilidade de perda ou dano |
| arriscar | Verbo | Expor ao risco; ousar |
| arriscado | Adjetivo | Que apresenta risco; ousado |
| arriscadamente | Advérbio | De forma arriscada; com ousadia |
| sem risco | Expressão | Sem perigo; seguro |
| risco zero | Expressão | Situação de perigo nulo (frequentemente irônico) |
| risco calculado | Expressão | Risco avaliado com critério; ousadia consciente |
| risico | Italiano | Étimo italiano direto de risco |
| risk | Inglês | Risco (via francês risque, de italiano risico) |
| risque | Francês | Risco; adjetivo “ousado” (via italiano) |
Tabela 3: Família etimológica de risco (perigo), das caravelas ao risk management global
Risco no Português Brasileiro e no Mundo
No Brasil, risco habita todos os registros da língua. “Correr o risco”, “risco de vida”, “a seu próprio risco”, “não vale o risco”, “risco calculado”: são expressões que descrevem posicionamentos perante o incerto, atitudes diante da possibilidade de perda. Mas a mesma palavra que estrutura a linguagem da prudência também estrutura a linguagem da coragem: “correr um risco” pode ser advertência ou elogio, dependendo do contexto.
O vocabulário corporativo global absorveu a palavra das caravelas de forma irônica. Risk management, risk assessment, risk appetite, risk matrix: a terminologia do mundo dos negócios contemporâneo, em inglês, em francês (risque), em português (gestão de riscos), usa a mesma palavra que os banqueiros genoveses inventaram para apostar em navios. A ideia que os marinheiros medievais nomearam ao olhar para o horizonte nunca parou de se expandir: do mar para o mercado, do mercado para qualquer projeto humano que envolva o desconhecido.

Dois troncos, quatro raízes disputadas: a árvore de risco é a única do léxico português com duas origens rivais num mesmo nome.
O Que Você Aprendeu sobre Risco
- A origem da palavra risco é disputada: teoria árabe (rizq = dádiva de Deus) ou teoria latina (resecum = recife cortante).
- Risco entrou no português no séc. XV pelo italiano risico, via banqueiros italianos que financiavam as caravelas.
- A trajetória semântica foi: perigo náutico → risco financeiro → qualquer incerteza com possibilidade de perda.
- Risco (perigo) e risco (traço desenhado) são dois homônimos com origens completamente separadas.
- Risco (traço) vem do germânico *writsjan ou latim *rasicare (raspar, gravar), nada a ver com perigo.
- Risk (inglês) e risque (francês) são irmãos etimológicos: mesma fonte italiana, línguas diferentes.
- O primeiro “gerenciamento de riscos” da história foi o seguro marítimo medieval.
Perguntas Frequentes sobre Risco
De onde vem a palavra risco?
Risco vem do italiano risico, que entrou no português durante a Era das Navegações (séc. XV–XVI). A origem do italiano risico é disputada: a teoria árabe propõe que vem de rizq (providência divina, porção de cada um); a teoria latina propõe que vem de resecum (de resecare = cortar), referindo-se ao recife que corta navios. Nenhuma teoria é definitiva.
Risco vem do árabe?
Possivelmente. Uma das principais teorias etimológicas propõe que o italiano risico vem do árabe rizq, que significa “o que Deus provê a cada pessoa; sustento divino”. O comércio mediterrâneo entre árabes e italianos teria transmitido a palavra ao italiano com o sentido de “resultado incerto do negócio”, algo que Deus determina, não o homem.
Risco (perigo) e risco (traço desenhado) têm a mesma origem?
Não. São dois homônimos com origens separadas. Risco (perigo) vem do italiano risico (árabe rizq ou latim resecum). Risco (traço, linha) vem de riscar, proveniente do latim *rasicare ou do germânico *writsjan. Quando alguém “faz um risco” no papel e quando “corre um risco”, usa palavras de famílias completamente diferentes.
Por que a palavra risco está associada às navegações portuguesas?
Porque risco entrou no português durante os sécs. XV–XVI, época das grandes navegações. Banqueiros italianos (genoveses e venezianos) financiavam as expedições e usavam risico para nomear a incerteza do investimento marítimo: se o navio naufragasse, o dinheiro estava perdido. O vocabulário náutico e financeiro fundiram-se numa única palavra.
De onde vem o verbo arriscar?
Arriscar vem de a- (prefixo de direção ou intensidade) + risco (perigo). Significa literalmente “lançar-se ao risco; expor-se ao perigo”. O prefixo a- segue o padrão de verbos como aventurar, alcançar, aproximar, todos indicando movimento em direção a algo.
Risk em inglês tem a mesma origem que risco em português?
Sim. Risk (inglês) vem do francês risque, que vem do italiano risico, a mesma fonte de risco em português. São cognatos que percorreram caminhos diferentes para chegar às duas línguas. O vocabulário do “risk management” corporativo usa a mesma palavra das caravelas portuguesas do séc. XV.
Conclusão: Origem da Palavra Risco
A origem da palavra risco continua em aberto, e talvez seja adequado que assim seja. Uma palavra que desde o início nomeia a incerteza, que nasceu de duas teorias igualmente plausíveis, que chegou ao português no momento em que os europeus decidiam lançar navios para além do horizonte conhecido: seria estranho se sua própria origem não fosse, ela mesma, incerta.
O que é certo é o percurso: do Mediterrâneo medieval ao Atlântico português, dos recifes invisíveis aos balanços de bancos, da proa das caravelas às planilhas de gestão de riscos corporativa. A palavra que os banqueiros genoveses usavam para apostar em navios que podiam não voltar governa hoje as decisões de investimento de todo o mundo. Os marinheiros medievais não sabiam que estavam nomeando um conceito que nunca pararia de crescer.
Leia Também
Fontes e Referências
- Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. CUNHA, Antônio Geraldo da. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. 4. ed. Rio de Janeiro: Lexikon, 2010. Consulta aos verbetes “risco”, “arriscar”.
- Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro de Salles. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009. Versão online: houaiss.uol.com.br. Consulta online aos verbetes “risco”, “riscar”, “arriscar” (ambos os homônimos).
- Dicionário Etimológico Online: Verbete “risco”. Disponível em: https://www.dicionarioetimologico.com.br/risco/ Consulta ao verbete “risco”.
- Wikcionário: Verbete “risco”. Disponível em: https://pt.wiktionary.org/wiki/risco Consulta a ambas as entradas (perigo e traço).
- Online Etymology Dictionary: Verbete “risk”. Disponível em: https://www.etymonline.com/word/risk Consulta ao verbete e hipóteses etimológicas.
- Origem da Palavra: Verbete “risco”. Disponível em: https://origemdapalavra.com.br/palavras/risco/ Consulta ao verbete “risco”.
- Online Etymology Dictionary: Verbete “risqué”. Disponível em: https://www.etymonline.com/word/risque Consulta ao cognato francês e à família etimológica.

